2006/10/23

Sentada ao lado de Tó no carro, Helena revia mentalmente toda aquela maluqueira. Um cartomante louco, um computador que só podia ter um vírus estranhíssimo, a "possessão" de Tó e agora uma viagem a Dornes para ver uma torre. Isto não podia estar a acontecer, mas estava.

Chegaram cedo a Tomar, ainda a Corredora não tinha acordado, e depois de uma muito breve visita a casa dos pais de Tó atravessaram a ponte velha em direcção à Igreja de Santa Maria do Olival.

- Sabes Helena é aqui que começa a nossa busca. Em tempos existiu um tunel que ligava esta torre sineira ao convento de Cristo e é nesta igreja que está o tumulo de Gualdim Pais de quem descendo.

O meu antepassado nasceu em 1118 em Amares, no então Condado Portucalense. Amigo de D. Afonso Henriques, é armado cavaleiro por este, após a Batalha de Ourique, contava então apenas vinte e um anos de idade. Pouco depois parte para a Palestina onde se torna Cavaleiro Templario. Regressa cinco anos depois para ajudar na formação da pátria, combatendo como Cavaleiro Templário e edificando castelos e fortalezas.
No ano de 1158 ascende ao mestrado da Ordem em Portugal, conduzindo-a durante décadas tornando-a cada vez mais poderosa, mas sempre em harmonia com o Rei, seu amigo. Faleceu em 1195 e foi aqui sepultado, mas este tumulo encerra um misterio. Está vazio, o corpo de Gualdim desapareceu.
Vamos agora para a praça da Républica, vamos ver a estátua do homem de quem te falo.

Já na praça Tó obrigou Helena a virar-se de costas para a estátua.


- Diz-me o que vês?
- O que vejo? Uma igreja! O que queres tu que eu veja?
- Ali em cima. Aquele baixo-relevo, vês? Rerepresenta um cão que designa a constelação cuja estrela principal é Sirius. Vemos também um leão que lembra a constelação e a sua estrela, Régulos. No centro, um «Graal», deverá ser relacionado com a constelação «a Taça». Estas figuras determinam um ângulo de 34 graus. Ora, a constelação de Leão forma com a Taça e a estrela Sirius do Grande Cão um ângulo de 34 grau, à meia-noite verdadeira, a 20 de Janeiro.
O dia e a hora a que tu nasceste Helena.

Um pouco abalada Helena sentiu as pernas tremer um suor frio precorreu-lhe as costas e se Tó não a amparasse teria caido redonda no chão da praça.

Enquanto tomavam uma àgua no Paraíso, Tó virou-se para Helena e disse:
- Desculpa tudo isto, mas ainda tenho mais duas coisas para te contar, uma fala de um triste dia, o dia 13 de Outubro de 1307 e de uma conspiração que quase acabou com a minha ordem. Nesse dia foi apresentado no tribunal da Inquisição de Paris um objecto, uma grande cabeça feminina de prata dourada que continha no seu interior dois ossos de um crânio muito pequeno envoltos num pano de linho branco e acompanhados por uma filactéria de tecido vermelho cosido onde era legível: Gaput LVIIm.
Nesse mesmo dia em Dornes, Guilherme de Pavia, feitor da Rainha Santa Isabel, perseguia um veado na Serra Vermelha quando ouviu um doloroso choro. Mas por mais que procurasse não conseguia encontrar de onde vinham tais gemidos. Resolveu então ir contar a novidade à Rainha Santa. Para seu espanto, esta não só sabia o motivo da viagem, como o local exacto de onde provinham aqueles gemidos.

Parecem coincidências mas não o são. É por isso que quis que viesses aqui, para poderes ver com os teus próprios olhos.

Terminaram a àgua e partiram imediatamente. A cada curva da sinuosa estrada Helena analizava e tentava por ordem em toda aquela informação, nada fazia sentido e contudo tudo era tão claro.
A torre templária de cinco faces mandada construir por Gualdim Pais junto ao rio Zêzere, avistava-se ao longe, majestosa. Helena sentiu um frio na barriga e uma estranha sensação de "dejá vú".


2006/10/11

- Vamos lá então ver o que escreveu a minha pequena Isabel de Aragão, mas antes aceito uma bebida.
- Estás louco! Nunca mais digas esse nome, não assim! Bolas, parece que não tens nada na cabeça tu! Às vezes, não sei porque é que te escolheram para guardião...
- Pronto pronto desculpa lá. Que nervosinha que estamos hoje. Relaxa um pouco olha que isso faz-te mal.
Já na sala e enquanto Helena preparava umas caipirinhas para ambos, não conseguia deixar de se sentir um tanto ou quanto angustiada, fora um pouco brusca para Tó, fora apenas um gracejo que aos ouvidos de qualquer outro não queria dizer nada, e no entanto para ela e para a marca que trazia consigo queria dizer tanto.
- Bem Tó, desculpa fui um pouco brusca e não queria dizer aquilo, tu és sem sombra de duvida o melhor guardião que o Templo já teve. Nunca em 888 anos houve um como tu.
- Como nós queres tu dizer, ouve Helena, eu sei que é um fardo é por isso que eu acredito no Oculto e nos Mestres. Porque ter-mo-nos encontrado não foi obra do acaso. Mas agora vamos lá ler esse teu best-seller.
Em frente ao monitor o rosto de Helena estava branco e Tó não conseguia acreditar no que estava a ler.
- Não fui eu, juro que não escrevi nada disto, eu nem sei latim, juro...
"Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam" brilhava em toda a sua gloria no ecrã do computador.